Ano III N.º XXV

Um breve balanço de 2008

Para o Brasil, a crise começou no último trimestre de 2008, quando a quebra do Lehman Brothers interrompeu o fluxo financeiro que irrigava o crédito comercial internacional. Com o objetivo de verificar o impacto da crise na economia brasileira serão apresentados abaixo índices de preços e indicadores de atividade econômica para todos os meses de 2008.

Pelo sistema de metas de inflação, que tem como referência o IPCA, o Banco Central tem por objetivo fazer com que a inflação fique mais próxima possível do centro da meta. Em 2008 e para 2009, a meta central de inflação é de 4,5%, com intervalo de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Deste modo, o IPCA pode oscilar entre 2,50% e 6,50% sem que a meta seja formalmente descumprida. Em 2008, o IPCA acumulado foi de 5,9%, embora esteja dentro do intervalo, ainda está acima da meta central de 4,5%. Nos últimos 7 anos o IPCA apresentou dois movimentos diferentes. Entre 2002 e 2006, se observa uma redução sistemática do índice, passando de 12,53% no acumulado do ano em 2002, para 3,14% em 2006. Ocorre a reversão desta tendência de queda do índice com a elevação observada em 2007 (4,46%) e em 2008 (5,90%). No ano de 2007 e até meados de 2008 se observava um forte impacto dos preços dos alimentos e do petróleo sobre a inflação brasileira. A partir da eclosão da crise, as perspectivas de crescimento mundial se reduziram, fazendo com que o descompasso entre oferta e demanda mundiais de alimentos e petróleo, principalmente no mercado futuro, se reduzisse. Este movimento de reversão de expectativas ao lado da forte desaceleração econômica global reduziram a pressão destes itens sobre a inflação, fato que pode ser evidenciado pela desaceleração sistemática de todos os índices acumulados em 12 meses entre outubro e dezembro de 2008.

Em 2009, o câmbio deve ser observado com atenção, pois existe o risco de que a elevação dos preços das matérias-primas importadas exerça uma pressão sobre a inflação, semelhante ao que ocorreu nas últimas duas desvalorizações cambiais significativas no Brasil (1999 e 2002). O Brasil ainda possui farta munição para combater as pressões inflacionárias ou estimular a economia via alterações na Taxa Selic, diferentemente dos EUA e países da Europa que estão com suas taxas básicas de juros reais próximas a zero ou inclusive negativas.

A produção de automóveis em 2008 foi de 3,21 milhões, expansão de 8,0% em relação a 2007 (2,98 milhões). Mesmo com o cenário adverso observado em 2008, a produção de veículos no país foi a maior da história, superando o antigo recorde observado em 2007. Contudo, é nítida a desaceleração da produção de automóveis a partir de agosto de 2008, que se intensifica em dezembro com uma queda na produção de 47,14% em relação ao mês anterior e um desempenho 53,77% inferior ao observado em dezembro 2007. Estes resultados negativos são parcialmente justificados pela queda nas vendas de veículos. Com a retração do crédito ocorrida em função da falência do Lehman Brothers, as vendas de automóveis sofreram forte queda em outubro (-10,94%) e novembro (-25,66%), voltando a apresentar crescimento positivo em dezembro (9,16%), principalmente devido ás medidas do governo de garantir liquidez no mercado e reduzir as alíquotas do IOF e IPI.

A Pesquisa Mensal do Comércio, realizada pelo IBGE, sugere que o varejo brasileiro foi impactado pelo cenário internacional turbulento já em outubro de 2008. Porém no acumulado do ano o desempenho do volume de vendas do comércio apresenta um resultado semelhante ao observado em 2007 (9,8%), ano considerado ótimo para o varejo brasileiro. Com a divulgação dos resultados de dezembro de 2008, que serão conhecidos em fevereiro de 2009, será possível verificar o real impacto da crise no comércio varejista do país.

Os indicadores apresentados acima (produção e venda de veículos e vendas no varejo) explicam boa parte do desempenho de dezembro do emprego formal no Brasil, que apresentou o pior resultado para o emprego com carteira assinada em dez anos. Segundo dados do Ministério do Trabalho, foram fechados 654.946 postos de trabalho em dezembro, o pior resultado desde 1999, início da série histórica do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Desde então, o pior desempenho era o de dezembro de 2004, quando houve o fechamento de 352 mil vagas formais de trabalho. O número se refere à diferença entre as contratações e demissões realizadas no período. No balanço do ano de 2008, foram criadas 1,452 milhão de vagas, resultado 10,2% abaixo do registrado em 2007. O resultado de 2008 foi o terceiro melhor da série histórica, atrás apenas de 2007 (1,617 milhão de vagas) e 2001 (1,523 milhão). Considerando o número de contratações e demissões, o Caged registrou dois novos recordes. No ano passado foram contratados 16,659 milhões de trabalhadores, e dispensados 15,2 milhões. Os setores que mais demitiram foram o de calçados e alimentos.

Os indicadores selecionados sugerem que a crise impactou significativamente a economia brasileira em 2008, principalmente no último trimestre. Para 2009 se espera que os impactos sejam significativos até o final do primeiro semestre, voltando a apresentar melhores resultados ao final de 2009.


Sergio Leusin Jr.
Assessoria Econômica Federasul/ACPA
sergio.leusin@federasul.com.br

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