Carta de Conjuntura Econômica ao Interior

Eleições 2006:

O processo eleitoral chegou a sua reta final sem que as campanhas e candidatos tenham sequer mencionado temas e questões primordiais ao desenvolvimento brasileiro de longo prazo. Para o Brasil crescer significativamente, assim como nossos vizinhos emergentes, são necessárias algumas reformas que há décadas estão sendo adiadas. As reformas da previdência e a tributária, por exemplo, são questões prioritárias e que deveriam estar em destaque nos planos de governo dos candidatos. Porém não é isso que vimos, ao contrário, o que se observa é uma sucessão de medidas paliativas que apenas alimentam uma bomba com data já marcada para explodir. Como exemplo disso temos as 229 mil normas tributárias criadas posteriormente à promulgação da Constituição Federal de 1988, ou seja, nos 18 anos de nossa jovem Constituição uma infinidade de normas foram criadas para tentar “resolver” ou “esclarecer” os entraves do nosso sistema tributário. Este é o retrato da burocracia brasileira. Como efeito deste absurdo temos a elevação dos custos inerentes à administração tributária das empresas, a falta de estímulo ao investimento produtivo e a redução do emprego. Fica claro também que esse número absurdo de novas normas no mínimo aumentou a dificuldade de os pagadores de impostos em estarem quites com suas obrigações legais. Movimentos sociais geralmente não se engajam na defesa de reformas, talvez pela complexidade do conteúdo ou por considerarem as reformas um “remédio amargo” pouco popular. Como efeito dessa morosidade social observamos políticos fracos e descomprometidos com os reais problemas brasileiros.

Comercio Exterior:

A balança comercial brasileira da primeira semana de outubro registrou superávit de US$ 1,129 bilhão, resultado de exportações no valor de US$ 3,114 bilhões e importações de US$ 1,985 bilhão. Em 2006, as exportações acumulam US$ 103,827 bilhões as importações US$ 68,696 bilhões, com saldo positivo da balança comercial de US$ 35,131 bilhões. Se compararmos estes resultados com o mesmo periodo de 2005 obsevamos uma elevação maior das importações (23,7%) que das exportações (15,9%), fato justificado pelo cambio mais favorável às importações. Os dados da balança comercial de agosto, setembro e inicio de outubro mostram que as exportações têm se mantido num patamar elevado e confirmam as expectativas de um saldo comercial, em 2006, superior ao ano de 2005. Esta informação deve ser analisada com cautela. Atualmente no Brasil 25 empresas são responsáveis por 70% das exportações, e o que se observa de 2005 para 2006 é uma diminuição no número de empresas exportadoras, assim como uma redução da participação das micro e pequenas empresas no quantum exportado. Esse dado é positivo por um lado, pois demonstra que essas poucas empresas conseguiram manter sua competitividade mesmo com um cambio como o atual, desfavorável às exportações. Por outro lado é preocupante, pois esse processo de concentração das exportações em poucas empresas vai contra a tendência do comercio mundial, que é de diversificação da pauta de produtos exportados, assim como uma crescente participação das micro e pequenas empresas no total exportado.

Commodities e eleições

Durante o mês de setembro a Bolsa de Valores de São Paulo (BOVESPA) sofreu com a crescente preocupação em relação a um possível desaquecimento da economia americana. Esse movimento trouxe um aumento na volatilidade dos mercados emergentes e um recuo nos preços das commodities, com destaque para as commodities energéticas como o petróleo WTI que apresentou uma queda de 10,5%, em setembro. Apesar do cenário internacional ainda favorável, o momento deve ser acompanhado com cuidado devido alguns fatores: (i) aumento da volatilidade dos preços das commodities; (ii) expectativa de redução no fluxo de recursos para os países emergentes; (iii) redução na expectativa de crescimento para a economia brasileira. Aliado a esses fatores há a incerteza em relação ao resultado das eleições no 2º turno. Diferentemente do nervosismo observado na eleição anterior, essa eleição está influenciando muito pouco no mercado financeiro, principalmente devido às apostas da maioria dos analistas de mercado que não há muita diferença entre os dois candidatos do ponto de vista macroeconômico de curto prazo.

Inflação:

O IGP-M de setembro elevou-se 0,29%, índice 0,08 ponto percentual inferior que o observado em agosto de 0,37%. Frutas como a laranja e o limão, com elevação de 16% e 36,77% respectivamente, foram as maiores influências positivas, já a redução de 17,77% observada na cebola, foi a maior colaboração negativamente para o estabelecimento do IGP-M de setembro. O IGP-DI que mede os preços que afetam diretamente a atividade econômica do País, excluída as exportações, apresentou uma elevação de 0,24% em setembro, 0,17 ponto percentual abaixo da variação registrada em agosto, de 0,41%.

Tabela1: Índices de Inflação (%)
  Agosto  Setembro  Acumulado do Ano  Acumulado 12 meses
IGP-M 
0,37
0,29
2,26
3,28
IGP-DI 
0,41
0,24
2,11
3,16
IPCA 
0,05
0,21
2,00
3,70
INPC 
-0,02
0,16
1,32
2,86

Fonte: IGP-M e IGP-DI, Fundação Getúlio Vargas.
IPCA e INPC, IBGE.
Tabela elaborada pelo autor.

O IPCA do mês de setembro teve variação de 0,21% e ficou acima da taxa observada em agosto, de 0,05%. As maiores influências positivas no IPCA do mês, ficaram por conta dos cigarros (de 0,00% em agosto para 2,72% em setembro), taxa de água e esgoto (de 0,51% para 1,89%) e artigos de vestuário (de 0,09% para 0,46%). Pode-se observar que os alimentos continuam mostrando relativa estabilidade de preços (de 0,07% para 0,08% em setembro), já os itens não alimentícios se apresentam em alta, com uma variação significativa de 0,04% em agosto para 0,24% em setembro. O IPCA é usado pelo Banco Central (BC) para balizar as metas de inflação. Como observado na tabela 1, o IPCA acumulado do ano ficou em 2,00%, deixando claros sinais de que a inflação de 2006 ficará próxima ao piso da meta estabelecida pelo BC. Importante salientar que no acumulado dos últimos 12 meses o IPCA já está bem abaixo da meta de 4,5% para 2006. A grande possibilidade de a inflação acumulada ficar em torno de 3,00% ao ano para 2006 alimenta uma série de expectativas. Entre elas está a expectativa da continuidade do processo de queda da taxa básica de juros (SELIC) para o ano de 2007.

Colaborou:
Marcelo Navarini
Sergio Leusin Jr.
Assessoria Econômica Federasul/ACPA - Telefone (0xx51) 3214.0200
sergio.leusin@federasul.com.br
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